- Às vezes eu sinto medo – disse ele, cabisbaixo diante daquele velho senhor que parecia que tudo compreendia.
- Medo do quê, meu jovem? – respondeu aquela voz cordial, mansa, atenta…
- Eu temo o senhor. Temo não ter mais amigos. Tenho medo de perder as pessoas que mais amo. Tenho medo de ficar sozinho, de não ser ninguém.
- E você acredita em mim, com todo seu coração?
- Em alguns momentos eu tenho dúvidas, preciso confessar. Algo no fundo do meu coração me diz que você existe, senhor Deus, mas… sabe… às vezes me sinto tão só!
- E por que você se sente só? – Respondeu Deus, olhando diretamente nos olhos daquele menino que diante dEle se encontrava.
- Porque parece que tudo o que eu tenho foi embora. Que todos que me amavam já não cultivam esse sentimento por mim. – Lágrimas desciam pelo rosto aflito daquele jovem rapaz.
- E você crê no amor? – Indagou o dono do Universo
- Sabe… Eu creio já ter vivido o amor. Acho que já senti ele quando passava pelo quarto da minha mãe e via ela de joelhos orando pela minha vida, ou quando abraçava minha irmã mais nova e sentia a alegria daquela criança emanar. Ou quando olhava nos olhos de alguém por quem fui apaixonado. Mas, de repente, sentado no escuro, sozinho no meu quarto, sinto que não tem mais nada… Mais ninguém… Se não vejo carinho, se não ouço palavras, começo a desacreditar no amor e me sinto só. – Disse o rapaz, em prantos.
- Então tu achas que o amor pode acabar?
- Sim! – entre soluços respondeu – e esse é o meu maior medo.
- Levanta-te dessa cadeira, caminhe até a beira da porta e apague a luz e depois retorne a sentar – Ordenou Deus.
- Mas pra quê, Senhor? Assim não poderei te ver. – Indagou o jovem.
- Obedeça e crê.
Levantando-se, o menino caminhou até o interruptor, desligou a luz e voltou a se sentar.
- O que faço agora? – perguntou.
Silêncio… Nada se ouvia…
Quase em pânico, lágrimas começaram a escorrer com mais força dos olhos daquele rapaz.
- Até o Senhor me abandonou no escuro, Deus? – gritou.
Como um arrepio, sentiu-se abraçado. Assustou-se, pois sabia que estava sozinho.
- Você me escuta? – Ecoou a voz de Deus.
- Sim – Respondeu ele.
- E você me vê? – Perguntou novamente o Soberano
- Não, Senhor. Não posso te ver.
- Mas você sabe que eu estou aqui?
- Sim, Deus. Tua voz me diz que sim.
- E se eu ficar em silêncio? – Questionou mais uma vez o Senhor
- Ainda sei que estarias, posso ouvir o teu respirar.
- E se eu mandar que feche teus ouvidos e você não possa mais me ouvir. Ainda saberia que estou aqui? – Continuou Deus a interrogar.
- Imagino que sim, Deus. Mas não teria a certeza. – Disse o garoto, ainda em dúvida sobre as perguntas.
- Você ouviu minha voz, sentiu o meu respirar, pode me ver, conversou comigo. Se por um acaso eu fosse embora agora, tu passarias a acreditar que eu não existo? – Perguntou Deus
- Não, senhor. É impossível acreditar que não existes depois de teres conversado comigo e de poder ver tua presença.
- Então sabes que mesmo que eu não esteja, ou que aparente não estar, eu existo e sou real, correto?
- Sim, senhor.
- Meu jovem. O amor também é assim. Vemos, ouvimos, sentimos todas as obras dele, mas nem por isso ele deixa de existir quando não podemos mais vê-lo, ouví-lo ou momentaneamente deixamos de sentí-lo. O amor é um dom supremo, grandioso, ele não se esvai, ele não esmorece. Tudo pode passar… Palavras podem ser jogadas ao vento, paixões podem ser apagadas, atos podem ser esquecidos, mas o amor…. o amor nunca acaba. Mesmo que não possas por algum momento ver quem te ama, ou ouvir palavras dóceis, não significa que o sentimento não exista e não esteja lá. Assim como agora te encontras no escuro e não podes me ver, quando estiveres sozinho não deixe de acreditar que o amor não existe só porque não podes vê-lo. Agora levanta-te e acenda a luz! – disse Deus com mansidão.
O rapaz se levantou, ligou a luz e viu Deus diante dEle.
- Assim como eu nunca vou te abandonar, meu jovem – disse Deus o pegando pela mão – tu nunca estarás sozinho. Quando sentires que o amor se foi, levanta-te e acenda a luz. Você nunca está só!










