Ele andou em silêncio, em direção ao escuro sufocante. O vento cortava seu rosto enquanto cada passo o guiava pelo gélido encanto da noite.
Respiração acelerada, mãos trêmulas, seu medo pairava sobre seu corpo, como uma áurea pesada em torno de si.
Cada centímetro de seu caminhar acompanhado de geladas gotas de lágrimas, não apenas de seu rosto, mas do céu, que também chorava. Será que a natureza contemplava sua dor? Será que seu estado de espírito se refletia no exterior?
A sombra das árvores, formada pela lua, se projetava sobre seu corpo e a escuridão parecia beijar-lhe o rosto; a angústia de ter a noite como sua única companhia sufocou-lhe mais uma vez. Não sabia onde estava indo, contudo sabia que continuava seguindo. Quem sabe esse seria seu remédio? Quem sabe o desconhecido apagasse o seu pesar?
Embora soubesse que é impossível fugir da própria consciência, preferia iludir-se com a doce mentira que a fuga lhe causava. Quanto mais se aprofundava na floresta, mais rápidos seus passos se tornavam. E os olhos continuavam a arder, o choro incontido caia sobre sua face, misturando-se com as gotículas de chuva, como uma fonte se encontra com o oceano; embora a beleza desse encontro seja contemplada por muitos sonhadores, o vazio do encontro de suas lágrimas era observado apenas por seu espírito solitário… e pela noite, que parecia não lhe abandonar.
Esgotando sua força, deixou que seu corpo pesado caísse no chão. Quiçá ali fosse seu lugar. O que resta para alguém sem esperança? O que é melhor que o frio do chão molhado, encantado pela luz da lua, para um homem que não tem nada além da sua dor?
Deitado, em silêncio, perdeu-se nos fantasmas da sua mente, ilustrado por lembranças que lhe tiravam o vigor e lhe arrastavam para aquela situação miserável.
O primeiro lhe dizia que não importava, nunca seria o suficiente. O que um homem medíocre poderia esperar da vida? Voltava a lhe assoprar nos ouvidos: “você nada pode, o muito que você tem ainda não é o suficiente”.
O segundo lhe arrebentou o coração em pedaços. Aliás, o que havia sobrado dele, que supunha ser nada. Ouvia-lhe dizer: “Amor? Sim, isso existe. Mas não para um tolo como você. Amor é reservado para pessoas bonitas, fortes, alegres. Você não é merecedor do amor. Ninguém lhe ama e nunca vai lhe amar. Todas as pessoas que já passaram pela sua vida sempre buscaram o que você podia oferecer e não procuravam você. Pode até se iludir, mas você nunca vai encontrar o amor.”
Sua mente vagava por frações da sua vida. Via diante de seus olhos as noites que passou em claro, trabalhando e não foi reconhecido. Passou por sua memória todas as lágrimas derramadas por amores incompreendidos, por relacionamentos interrompidos, por paixões não sustentadas. Girava sem controle pelo fluxo de lembranças que lhe queimavam a alma, fazendo-lhe ver que ele não era nada, apenas mais um homem sem importância no meio da multidão.
Recuperou-se dos devaneios, ainda deitado no chão. Viu acima de si o brilho das estrelas. O vento havia varrido a chuva e, para o seu deleite, um lençol de estrelas cobria-lhe a visão. Tentou levantar e, sem forças, caiu ao chão… Olhos fechados, com a mente inconsciente, parecia assistir de platéia sua vida sendo tirada de si. Sentiu sua alma elevar-se e – como se olhasse por outros olhos – viu seu corpo mórbido, abandonado. Abaixo de si, a grama que ainda estava molhada. O chão parecia representar seu fim. Observando ainda de longe, lembrou do céu que o presenteava com estrelas. Como um choque, viu que havia optado por dar-se por vencido, jogando-se ao chão, do que levantar seus braços e tentar capturar uma estrela.
Abriu os olhos! Consciente, agora, entendeu que aquela havia sido apenas uma viagem dentro do seu próprio coração.
Naquele momento, deitado na sua cama, em seu quarto, observou que ao seu lado repousava sua namorada, com quem brigara na noite anterior. Sentiu-se grato porque apesar de tudo, sabia que ali já encontrara o amor e conheceu-se ingrato por deixar que o pouco dos abalos da relação tomassem um lugar maior que o sentimento que os sustentava. Banhado em lágrimas, compreendeu que o sentido da vida é buscar as estrelas, não esperar que elas caiam enquanto se mantém deitado no chão.
